O erro que parece um resultado
Quando uma conta de correção dá errado, quase nunca aparece um aviso. O que aparece é um número plausível: um percentil 16 que deveria ser 25, ou uma classificação "média inferior" que deveria ser "média". O número segue para o laudo, e o laudo segue para uma decisão.
Os erros abaixo foram observados repetidamente na correção manual e em planilhas. Nenhum deles é falta de conhecimento técnico. São falhas de procedimento, e por isso podem ser prevenidas com conferência.
1. A idade calculada pela metade
Muitas normas são divididas em faixas de meses, e não de anos. Calcular a idade subtraindo apenas os anos ("2026 menos 2017, então 9 anos") pode colocar a criança na faixa errada quando o aniversário ainda não chegou ou quando a faixa é de 9 anos e 0 meses a 9 anos e 3 meses.
Outros dois detalhes causam o mesmo efeito:
- usar a data de hoje em vez da data da aplicação;
- aplicar em mais de uma sessão e não verificar se a pessoa mudou de faixa entre elas. Nesse caso, siga a orientação do manual sobre qual data considerar.
Como conferir: calcule a idade em anos, meses e dias a partir da data da aplicação, e anote a faixa normativa ao lado do escore.
2. A tabela certa do subgrupo errado
Normas estratificadas por sexo, escolaridade, região ou tipo de escola exigem escolher a tabela certa antes da conversão. O erro mais frequente é usar a tabela geral quando o manual exige a tabela do subgrupo, ou escolher a escolaridade pelo nível ("ensino médio") quando a norma pede anos de estudo.
Um segundo erro é usar a norma de uma edição antiga do manual depois que uma atualização foi publicada, ou o contrário, misturar edições na mesma bateria.
Como conferir: registre no protocolo qual tabela e qual edição do manual foram usadas. Essa informação também deve aparecer no laudo.
3. O percentil estimado por fórmula quando o manual tem tabela
É comum converter o escore em percentil pela curva normal: calcular o z a partir da média e do desvio-padrão e transformá-lo em percentil. Isso funciona quando a distribuição é aproximadamente normal e quando o manual autoriza o procedimento.
Muitos instrumentos, porém, têm distribuições assimétricas, especialmente em tarefas de memória e de velocidade, e trazem tabelas de conversão construídas a partir da distribuição real da amostra. Nessas condições, a fórmula e a tabela divergem justamente nas caudas, que é onde estão as decisões clínicas.
Como conferir: se o manual traz uma tabela de conversão, use a tabela. A fórmula é um atalho, não uma equivalência.
4. O item em branco que virou zero
Em escalas e inventários, um item sem resposta somado como zero reduz o escore total sem que ninguém perceba. Cada instrumento tem a sua regra: alguns permitem estimar o total quando poucos itens faltam, outros invalidam a aplicação a partir de certo número de omissões, e outros não preveem nenhuma das duas situações.
O mesmo vale para os itens invertidos. Esquecer a inversão de um único item muda pouco, mas esquecer todos muda a classificação.
Como conferir: conte as omissões antes de somar e aplique a regra do manual. Confirme a lista de itens invertidos com a chave oficial, e não com uma cópia de terceiros.
5. O arredondamento no meio do caminho
Quando a correção tem várias etapas (bruto, ponderado, soma, índice composto), arredondar em uma etapa intermediária pode deslocar o resultado final em uma unidade. Isso basta para mudar a faixa de classificação de alguém que está no limite.
Planilhas pioram o problema quando a célula exibe um valor arredondado, mas a fórmula seguinte usa o valor completo, ou vice-versa.
Como conferir: arredonde apenas onde o manual manda arredondar. Na planilha, não confie no que a célula mostra: verifique o valor real da célula.
6. A regra de início e de interrupção aplicada na correção, e não na aplicação
Instrumentos com regras de início, retorno e interrupção definem quais itens contam como acertos presumidos e onde a contagem para. Corrigir somando apenas os itens aplicados, sem creditar os itens anteriores ao ponto de início, subestima o escore bruto. Somar itens aplicados depois do critério de interrupção o superestima.
Como conferir: marque no protocolo, durante a aplicação, o ponto de início, o retorno (se houve) e o ponto de interrupção. Na correção, siga essas marcas.
Uma auditoria de quinze minutos
Se você corrige em planilha própria, faça este teste uma vez e repita sempre que alterar uma fórmula:
- Pegue o exemplo resolvido do manual, se houver, e passe pela planilha. O resultado precisa ser idêntico.
- Teste uma pessoa no limite entre duas faixas de idade, uma no dia anterior e outra no dia do aniversário.
- Teste um protocolo com itens em branco e outro com todos os itens invertidos no extremo.
- Teste escores brutos no mínimo e no máximo possíveis. Fórmulas costumam falhar nas pontas da tabela.
- Verifique se cada fórmula aponta para a linha e a tabela certas. Uma fórmula arrastada para a linha seguinte é um erro clássico.
O que muda quando a correção é automatizada
A correção informatizada elimina erros de digitação e de consulta à tabela errada, mas não dispensa o julgamento clínico. Você continua responsável por informar os dados de entrada corretos (data de nascimento, escolaridade, sexo, data da aplicação) e por decidir se o escore pode ser interpretado diante das condições da testagem.
O ponto de atenção é o mesmo dos seis erros acima: um sistema que corrige errado também não avisa. Prefira ferramentas que mostrem a tabela normativa e a edição usadas em cada resultado, para que você possa conferir.